Livro I · O Brejo que Lembra
Capítulo 3 · O Pacto das Cinco Pedras

1. O Inverno Cinzento
A Bruma tem marés. Recua por séculos e volta de uma vez. Os elfos registraram nas Luzes que essas marés existiram desde o começo, mas nenhuma foi como a que veio há mil e duzentos invernos: o Inverno Cinzento.
A névoa subiu dos vales e não baixou mais. Durante anos, o sol foi um disco pálido. Aldeias inteiras foram engolidas: quem ficava dentro da Bruma tempo demais começava a esquecer o próprio nome, depois o caminho de casa, depois o rosto dos filhos. Os que se perdiam assim não morriam: vagavam, ocos, até virar névoa.
Oruvael lutou. Voava dia e noite, soprando verde sobre as aldeias. Mas o mundo tinha crescido, e ele era um só. Onde ele estava, a Bruma recuava; onde não estava, ela comia. As lembranças chegavam à Margem em tamanha quantidade que nem ele nem Ramius davam conta de devolvê-las, e muitas se perderam para sempre.
2. As Guerras da Bruma
Quando a terra limpa encolhe, os povos brigam por ela.
Humanos e trolls disputaram as margens altas dos rios. Anões e elfos guerrearam pelas encostas onde a névoa não chegava: os anões queriam cavar abrigos na rocha, e os elfos acusavam as minas de envenenar as raízes. Os humanos, espalhados pelos campos, foram os que mais sofreram, porque a planície não tem onde se esconder.
Foi uma época de fome, medo e traição. Cada povo culpou os outros. Ninguém culpou a Bruma, porque não se culpa o tempo.
3. Degol de Romar
Entre os humanos surgiu um líder: Degol, filho de cavaleiros de Romar, a cidade das planícies. Era corajoso, inteligente e incansável, e tinha o dom do seu povo em dose maior que todos: sabia unir. Onde ele passava, inimigos sentavam à mesma mesa.
Degol percebeu uma coisa que ninguém tinha percebido. Nas minas de Qexelcrag, os anões tinham encontrado veios de esmeralda verde, a seiva do Dragão cristalizada. E onde havia uma esmeralda, a Bruma não entrava. Uma pedra do tamanho de um punho mantinha uma galeria inteira limpa.
Degol fez a conta que ninguém teria coragem de fazer. Se um punhado de seiva seca protegia uma galeria, o que faria o coração do próprio Dragão? Uma cidade inteira, talvez. Cinco cidades. Para sempre, sem depender de um dragão que voava para onde queria e chegava tarde demais.
4. O Conselho das Cinco Margens
Degol reuniu os povos às margens do lugar onde quatro rios se encontram. Vieram o Conselho de Romar, os mestres-de-forja de Qexelcrag, os guardiões das Luzes da Floresta e, por último e a contragosto, a anciã que falava pelo Totem de Glukmoore: Murra Voz-Antiga.
Degol propôs o Pacto das Cinco Pedras:
- os povos se uniriam para derrubar Oruvael;
- os anões cortariam o coração dele em cinco Pedras;
- cada povo receberia uma Pedra para proteger a sua cidade da Bruma, e a quinta ficaria num centro comum, neutro, onde os quatro povos decidiriam juntos;
- nunca mais um povo atacaria outro: as cidades formariam um só Reino.
Humanos, anões e elfos aceitaram. Estavam morrendo, e a proposta era a primeira esperança em vinte anos.
Murra se levantou e disse a frase que Glukmoore repete até hoje:
"O que se prende, apodrece. Se ele não voltar, ninguém volta."
Os trolls sabiam o que os outros tinham esquecido: Oruvael não era só uma arma contra a Bruma. Era quem devolvia os mortos. Matá-lo era quebrar o Ciclo.
Degol respondeu que os anões tinham estudado as raízes e que o Dragão voltaria, como tudo volta. Só que voltaria preso, e seu poder serviria aos povos em vez de voar ao acaso. Disse também que, se os trolls não aceitassem, o Reino seria feito sem eles, e o Grande Lodo ficaria do lado de fora de todas as fronteiras.
5. A Guerra do Lodo
Glukmoore se partiu ao meio.
Os mais velhos, com Murra, temiam a extinção: sozinhos, os trolls não sobreviveriam à Bruma nem ao novo Reino. Os mais jovens, liderados pela guerreira Brakka Dente-Partido, juraram defender o sono do Dragão até o último.
Quando o exército do Pacto marchou para o Grande Lodo, Brakka e os seus o esperaram nos canais. A Guerra do Lodo durou uma estação. Os trolls conheciam cada palmo da água, e muitos soldados do Pacto se afogaram nos canais sem nunca ver o inimigo. Mas eram poucos contra quatro povos.
Para salvar o que restava do seu povo, Murra fez o acordo que a perseguiria para sempre. Glukmoore entraria no Pacto, com três condições:
- os trolls guardariam a Pedra do Lodo, a que ficaria sobre o covil, para que ninguém de fora tocasse o lugar onde o Dragão dorme;
- o nome de Oruvael seria lembrado no Totem;
- Glukmoore teria assento no Conselho do Reino, para sempre.
Degol aceitou e cobrou um preço: os rebeldes seriam punidos. Murra, com a mão tremendo, raspou do Totem o nome de Brakka e de todos os que lutaram com ela. Um troll sem nome no Totem não é lembrado, e quem não é lembrado não volta da morte. Os rebeldes foram expulsos para o pântano fundo. Seus descendentes ainda vivem lá: são os Sem-Totem, que o Reino chama de Exilados de Glukmoore.
6. A Primeira Queda
Com os quatro povos unidos, Degol desceu ao covil.
O Covil fica no fundo do Grande Lodo, onde a raiz mais antiga toca a Margem. Lá o tempo não corre como aqui, e a água é tão parada quanto no começo do mundo. Oruvael os esperava acordado. Sabia por que tinham vindo.
A batalha durou um dia e uma noite. Morreram muitos campeões dos quatro povos. No fim, Degol cravou no peito do Dragão uma lâmina de esmeralda forjada pelos anões.
Quando Oruvael caiu, aconteceram três coisas que ninguém esperava.
A primeira: o coração do Dragão não parou. Endureceu, e virou uma esmeralda do tamanho de um homem, quente e pulsando: a Grande Esmeralda.
A segunda: o sopro que estava dentro dele saiu de uma vez, procurou o ser vivo mais próximo e entrou em Degol. O corpo do matador se desfez e se refez no mesmo instante: Degol se levantou jovem, sem cicatrizes, sem a força que tinha treinado a vida inteira, mas com todas as lembranças. Na palma da mão direita, ficou gravado um sinal verde em forma de escama. Foi a primeira Marca do Dragão.
A terceira: o sangue do Dragão escorreu pelo lodo e, onde caiu, a água se encheu de pequenas pedras verdes. O Reino as chama de gemas até hoje.
7. As Cinco Pedras e a fundação do Reino
Os anões cortaram a Grande Esmeralda em cinco Pedras. Cada uma foi levada ao seu lugar:
| Pedra | Lugar | O que deu à cidade |
|---|---|---|
| Pedra do Vento | Romar, a cidade dos humanos | campos férteis e cavalos incansáveis |
| Pedra do Fundo | Qexelcrag, a cidade dos anões | minas ricas em metal e em gemas |
| Pedra da Luz | Velária, a cidade dos elfos | Luzes que nunca se apagam |
| Pedra do Lodo | Glukmoore, a cidade dos trolls | nada, além do peso de guardar o covil |
| A Coroa | Degolburg, o centro comum | o poder de decidir por todos |
A quinta Pedra não foi posta num altar. Os anões a engastaram num aro de ouro, e o Conselho a colocou na cabeça de Degol. É por isso que, no Reino, o governo se chama a Coroa: não é um símbolo, é uma pedra.
No lugar onde os quatro rios se encontram, ergueu-se a capital, e ela recebeu o nome do seu fundador: Degolburg. Esse foi o Ano 1 da Coroa.
E a Bruma recuou. As cidades ficaram limpas. Pela primeira vez em vinte anos, o sol brilhou forte sobre o Reino. O Pacto funcionou, e é por isso que, mil e duzentos anos depois, quase ninguém o questiona.
8. O Retorno
Sete invernos depois, o Grande Lodo tremeu. Do fundo do covil subiu um rugido que se ouviu até Romar.
Oruvael tinha voltado.
Degol estava certo: o Dragão voltou, como tudo volta. Mas voltou preso. As Pedras puxavam o seu poder para as cidades, e ele só conseguia se refazer no covil, sob a Pedra do Lodo. Voltou menor do que era, e com uma dor que não passava. Voltou lembrando de quem o tinha matado. E, pela primeira vez na história do mundo, Oruvael atacou os povos.
Degol desceu outra vez e venceu outra vez. Outra vez o sopro entrou nele e o refez, e outra vez o lodo se encheu de gemas. Então Degol entendeu o que tinha nas mãos.
O Dragão não podia ser morto para sempre. Mas podia ser vencido de novo e de novo. E cada vitória dava gemas ao Reino, refazia o vencedor e mantinha o poder das Pedras correndo para as cidades. A desgraça de Oruvael era a riqueza do Reino.
9. Os Contos da Capital
Com os anos, Glukmoore começou a incomodar. Era a única cidade que não ganhava nada com o Pacto, a única que lembrava o nome do Dragão e a única cujos anciãos ainda diziam, junto ao fogo, que o Ciclo tinha sido quebrado.
A Coroa não precisou mandar soldados. Bastou mandar histórias.
Nos salões de Degolburg passaram a circular os Contos da Capital: que os trolls punham ovos no lodo, que os filhotes se devoravam, que os trolls comiam os próprios mortos, que eram burros, sujos e violentos por natureza. Bardos repetiram, crianças acreditaram, e em poucas gerações o Reino inteiro olhava para Glukmoore com nojo.
A promessa do assento no Conselho foi esquecida aos poucos: primeiro o representante troll deixou de ser chamado; depois a cadeira foi retirada. As estradas para o Grande Lodo deixaram de ser consertadas, e Glukmoore ficou do lado de fora do mapa.
O Reino esqueceu Glukmoore. Só nunca esqueceu de cobrar. Todo ano, um coletor da Coroa ia até o Lodo buscar o dízimo, e o cofre do Banco do Reino em Glukmoore é o único fio que a capital nunca deixou de puxar.