Livro I · O Brejo que Lembra
Capítulo 2 · Os Quatro Despertares

Os povos não foram fabricados por ninguém. Despertaram.
Onde o sopro de Oruvael tocava a terra por tempo suficiente, a vida passava a lembrar de si mesma com tanta força que, um dia, começava a pensar. Isso aconteceu quatro vezes, em quatro lugares, e cada povo carrega até hoje a marca do lugar onde acordou.
Nenhum povo é mais velho em valor, só em tempo. Nenhum é bom ou mau por natureza. Entre todos há curandeiros e assassinos, sábios e tolos, heróis e traidores.
1. Os Primogênitos do Lodo: os Trolls
O primeiro despertar foi no Grande Lodo, o pântano ao pé da raiz mais antiga, onde Oruvael dormia entre uma volta e outra. Ali o sopro verde era tão constante que o próprio barro começou a ter vontade.
Os primeiros trolls saíram do lodo grandes, fortes e cobertos de uma pele grossa, verde-acinzentada como a margem dos canais. Do lugar onde nasceram herdaram dois dons:
- o Sangue Tenaz: como o pântano, que se refaz depois de cada cheia, o corpo troll se recupera de feridas que matariam outros povos. Por isso os trolls têm mais Vida e se regeneram;
- a Memória: nascidos ao lado do Ciclo, os trolls entenderam antes de todos que lembrar é uma forma de manter vivo. Não escreviam: falavam, cantavam e entalhavam. Inventaram o Totem, um tronco onde se gravam os nomes dos que viveram, e o costume de dizer esses nomes em voz alta junto ao fogo.
Os trolls conviveram com Oruvael por gerações. Não o adoravam: tratavam-no como um vizinho antigo e perigoso, a quem se deve respeito. Em troca de nada, só porque era certo, juraram guardar o sono do Dragão e lembrar os seus mortos para que ele pudesse devolvê-los. Esse foi o Pacto Antigo, o primeiro acordo do mundo, feito sem papel e sem coroa.
Os trolls nascem vivos, de mães trolls, e são criados pela família e pela aldeia inteira. O que se conta no Reino sobre ovos, filhos que se devoram e trolls que comem os seus é mentira, e mais adiante se conta quem a inventou.
2. Os Filhos da Copa: os Elfos
O segundo despertar foi no alto. Nas copas da Floresta mais antiga, a luz do sopro de Oruvael ficava presa entre as folhas, e de tanto brilhar ali, a luz começou a ver.
Os elfos acordaram esguios, leves e de olhos claros, entre galhos tão altos que o chão era uma lenda. Herdaram:
- o Passo Leve e o olho certeiro: quem nasceu entre galhos aprendeu a não errar o passo nem o alvo. Por isso os elfos golpeiam com mais precisão;
- as Luzes: os elfos descobriram que as lembranças, antes de chegar à Margem, deixam um brilho no ar. Aprenderam a recolher esse brilho em pequenas luzes, que guardam caminhos, estações e vozes. As Luzes são a biblioteca dos elfos.
Os elfos não são imortais. Vivem muito, e envelhecem devagar, mas morrem como todos. A fama de imortalidade nasceu porque um elfo velho, cercado das Luzes de seus antepassados, parece conversar com quem já se foi.
3. Os Guardiões do Fundo: os Anões
O terceiro despertar foi no fundo. As raízes de Oruvael desciam até a pedra viva das montanhas, e o sopro, levado pela seiva, chegou a lugares onde nunca bateu sol. Ali a própria pedra começou a se perguntar sobre si mesma.
Os anões acordaram baixos, largos e pesados, com a paciência de quem nasceu dentro da montanha. Herdaram:
- a Pele de Pedra: o corpo anão aguenta golpes como a rocha aguenta o tempo. Por isso os anões se defendem melhor;
- a Forma: os anões entendem a matéria como ninguém. Sabem onde a pedra vai rachar antes de bater nela, sabem fundir o que não se funde e foram os únicos a aprender a trabalhar a esmeralda verde, a pedra que se forma onde a seiva do Dragão se cristaliza. Esse saber vai mudar o mundo, e não para melhor.
A cerveja anã é famosa, e merece ser. Mas um anão não é a sua caneca: é o seu ofício.
4. Os Filhos do Vento: os Humanos
O quarto e último despertar foi nos campos. Nas planícies abertas, onde Oruvael passava voando de uma margem a outra, o vento das suas asas levava o cheiro do sopro verde para longe. Onde esse vento soprava sempre, a relva aprendeu a correr, e depois a falar.
Os humanos acordaram menores que os trolls, mais frágeis que os anões e mais lentos que os elfos. Mas herdaram o que nenhum outro povo tinha:
- a Determinação: nascidos no vento, os humanos não param. Aguentam mais esforço, recuperam o fôlego mais depressa e insistem quando os outros desistem. Por isso os humanos têm mais Energia;
- o Caminho: os humanos foram os primeiros a ligar um lugar a outro. Abriram trilhas, domaram cavalos, levaram o sal de uma margem e a madeira de outra. Onde há uma estrada, houve um humano.
Foi por esse dom, o de unir, que um humano um dia uniu todos os povos. Também foi por ele que o mundo se partiu.
5. Os outros que acordaram
Nem todo despertar gerou um povo grande. O sopro de Oruvael tocou muitos lugares, e em alguns deles a vida acordou pequena, estranha ou rude:
- os Escamudos, homens-lagarto das águas fundas do pântano, que acordaram antes até dos trolls, mas nunca construíram cidades. Adoram Oruvael como um deus e não perdoam quem o prendeu;
- os Ogros dos canais, um povo pequeno em número e enorme em tamanho, que vive de cobrar passagem nos rios e nunca entrou em pacto nenhum;
- os Catadores, um povo miúdo e corcunda que vive dos restos do pântano e anda em bando.
Esses povos não são monstros. Alguns são inimigos de Glukmoore, outros são apenas perigosos. Cada um tem as suas razões.
6. A Idade do Verde
Por muitas gerações, os quatro povos viveram separados, cada um no seu lugar, e o mundo foi largo o bastante para todos. Os anciãos chamam esse tempo de Idade do Verde.
Os humanos foram os primeiros a procurar os outros. Suas trilhas chegaram aos pés das montanhas, onde trocaram trigo por ferro com os anões; às bordas da Floresta, onde os elfos lhes ensinaram a ler as estrelas; e às margens do Grande Lodo, onde os trolls lhes ensinaram que certos caminhos de água não devem ser atravessados à noite.
Houve brigas, como sempre há. Mas Oruvael continuava a voar, a Bruma continuava longe e as lembranças continuavam a voltar. Ninguém pensava no Dragão como um problema. Ele era como o sol: estava lá.
Isso mudou com o Inverno Cinzento.