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A Lenda do Dragão VerdeJogar

Livro I · O Brejo que Lembra

Capítulo 1 · O Começo de Tudo

O Dragão Verde, Oruvael
O Dragão Verde, Oruvael

1. O Mar Parado e a Bruma

No começo havia água, e a água não se movia.

Os anciãos de Glukmoore chamam esse tempo de Mar Parado. Não havia margens, nem fundo, nem céu separado da água. Sobre ela pairava a Bruma, uma névoa cinzenta, fria e sem cheiro.

Coisas nasciam no Mar Parado: um brilho, um movimento, uma forma. Mas a Bruma as tocava, e elas se desfaziam antes de durar. Não morriam, porque morrer exige ter existido o bastante para deixar falta. Eram esquecidas. Tudo o que nascia era apagado, e o mundo recomeçava vazio a cada instante.

A Bruma não é vento nem nuvem. É fome. É o esquecimento com vontade própria. Os trolls mais velhos a chamam por um nome que não gostam de dizer perto do fogo: Aquela-que-Apaga.

2. A Semente e o Primeiro Verde

Ninguém sabe de onde veio a Semente. Alguns dizem que caiu das estrelas; os anões dizem que sempre esteve no fundo da pedra, esperando; os trolls dizem apenas que veio, e que perguntar de onde é como perguntar de onde vem a vontade de viver.

A Semente afundou no Mar Parado e tocou o fundo. Dela saiu a primeira raiz. A raiz fez algo que nada antes tinha feito: segurou. Prendeu o lodo, e o lodo virou chão. Puxou a água, e a água começou a correr. Onde a água corria, a Bruma se rompia.

Assim começou o Primeiro Verde: o chão, as margens, os rios, e a Floresta que cresceu sobre tudo isso. Mas a raiz sozinha era lenta, e a Bruma era paciente. Para cada palmo que o Verde ganhava, a Bruma tentava retomar dois.

3. Oruvael, o Dragão Verde

Então, do coração da raiz mais antiga, nasceu o guardião.

Ele saiu do lodo com escamas da cor das folhas novas, olhos de âmbar e asas largas como a copa de uma árvore. Quando abriu a boca, não saiu fogo: saiu um sopro verde, quente e vivo, que queimava a Bruma como o sol queima o orvalho. Onde ele soprava, as coisas passavam a durar. Passavam a ser lembradas.

Os primeiros que o viram deram a ele um nome na língua antiga do lodo: Oruvael, que quer dizer Aquele que Devolve. O Reino de hoje esqueceu esse nome. Chama-o apenas de Dragão Verde.

Oruvael não era um deus. Era um ser vivo: podia sangrar, cansar e errar. Mas cumpria uma tarefa que nenhum outro ser podia cumprir, e é dessa tarefa que depende tudo o mais neste livro.

4. O Ciclo do Retorno

Quando o Verde passou a existir, a morte passou a existir também. Uma árvore caía, um animal morria, uma folha secava. E então a pergunta: para onde vai o que viveu?

A resposta de Oruvael foi o Ciclo do Retorno.

Tudo o que vive guarda uma lembrança de si: o peso dos passos, o medo, a força, o nome, quando há nome. Quando um ser morre, essa lembrança se solta do corpo e atravessa para uma margem que os olhos dos vivos não alcançam: a Margem, que hoje o Reino chama de Terra das Sombras.

Na Margem, as lembranças esperam. Oruvael desce até lá, em seu sono, e as recolhe. Depois as devolve às raízes, e das raízes nasce vida nova. O que morreu não volta igual, mas volta: uma árvore vira solo, o solo vira semente, a semente vira floresta.

O que Oruvael não recolhe, a Bruma come. Uma lembrança que fica tempo demais na Margem começa a se apagar. Primeiro perde o nome, depois a forma, e por fim vira névoa.

Esse é o equilíbrio de todo o mundo:

  • o Verde faz nascer;
  • a Margem guarda o que morreu;
  • Oruvael devolve;
  • a Bruma espera, sempre, pelo que ninguém lembrar.

5. O Primeiro Morto que Lembrou

Muito antes dos povos, houve uma criatura que morreu e se recusou a esquecer.

Ninguém sabe o que ela era em vida. Nem ela sabe mais. Mas, ao chegar à Margem, segurou-se ao próprio nome com tanta força que a Bruma não conseguiu apagá-la. Oruvael a encontrou ali, inteira, quando todas as outras lembranças já se desfaziam.

Em vez de devolvê-la às raízes, o Dragão lhe deu uma tarefa: guardar a Margem. Separar as lembranças que ainda podiam voltar daquelas que já estavam perdidas, e manter a Bruma longe da passagem.

Ela aceitou. Construiu na Margem uma casa de pedra e névoa, o Mausoléu, e passou a ser chamada pelo único nome que lhe restou: Ramius.

Ramius não criou a morte e não é dono dos mortos. É o porteiro de uma passagem. Sabe mais sobre o Ciclo do que qualquer vivo, e é paciente como só pode ser quem já esqueceu a própria idade.